Laerte Braga
Qualquer que seja a dimensão da conjuntura e os fatos políticos que dela advêm o que permanece viva e presente em cada momento da vida é a luta de classes. Vejo com freqüência se dizer que é preciso deixar de lado conceitos da ortodoxia marxista e buscar enxergar a realidade de um mundo novo.
A leitura do Manifesto do Partido Comunista, publicado pela primeira vez em 1848 dá a nítida sensação que foi escrito hoje, poucos minutos atrás. Não há uma infirma mudança naquela realidade. Nem tampouco necessidade de releitura de conceitos marxistas.
De um modo geral esse tipo de argumento, como a “morte da História”, serve aos propósitos da classe dominante. Nada além disso.
Se alguém disser que a realidade de tempo e espaço é diversa, direi que apenas na sofisticação a que se permitem as elites a partir de tecnologias geradoras de formas de dominação mais perversas e brutais, ainda que não se consiga – muitos – deixar de olhar um letreiro da cadeia Mcdonalds, de sintonizar a GLOBO, qualquer outra rede, no pressuposto de um sanduíche ou do sucesso.
Criou-se de fato a “sociedade do espetáculo”. Com linguagem própria e meios que transferiram a adoração feita nos altares onde a reverência e a submissão se manifestavam no beijo do anel, para as imensas lojas de shoppings e um “deus” chamado mercado.
Não existe progresso se esse for de apenas uma classe. Aí é privilégio.
Eu não tenho dúvidas que os apresentadores e comentaristas de telejornais no Brasil, como em nações onde a luta de classes se mostra mais aguda, são atores. Dispõem-se a qualquer papel e à diferença de atores/atores (digamos assim) está no fato que não voltam nunca a ser pessoas. Bonner é Bonner em cada momento que representa a vida. William Haak e William Haak em cada instante do papel que cumpre. Não têm identidade.
Robôs? Numa certa medida sim. Perderam almas, não sabem o significado de compromissos éticos com a verdade, mas adaptam-se aos papéis que encenam com impressionante adoração pelo “deus” que lhes paga.
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra) ocupou uma “fazenda” da CUTRALE, plantadora de laranjas e produtora de sucos. O INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) informou que a “fazenda”, de nome Santo Henrique, pertence à União. São terras públicas griladas por uma empresa. Estão numa área conhecida como Núcleo Colonial Monção. O Estado depende de uma ordem judicial para recuperar a posse dessas terras recebidas em 1909 como parte de pagamento de dívidas da Companhia de Colonização São Paulo e Paraná.
Só contra a empresa CUTRALE o INCRA tem pelo menos cinqüenta ações na Justiça no município de Ourinhos, SP.
As decisões judiciais contra o MST saem em 48 horas via de regra. Contra empresas que grilam terras públicas só Deus, esse o outro, não o mercado, sabe.
A mídia vende a idéia de ato criminoso por parte do MST. Não toca na grilagem de terras públicas pelas empresas.
Nem passa perto das dívidas dos grandes latifúndios com o Banco do Brasil e agências de fomento da União. Nunca foram pagas, são sempre roladas. Ignora os resultados obtidos nas pequenas propriedades rurais e os benefícios gerados a partir daí. Nem pensa em mostrar os resultados da pesquisa do IBGE que mostra a concentração crescente de terras no Brasil em mãos de poucos proprietários (pessoas físicas ou jurídicas)
É que esses pagam os salários dos atores/apresentadores. Os donos.
Quando a senadora Kátia Abreu, envolvida em desvio de verbas públicas para a agricultura e despejadas em sua campanha eleitoral vocifera contra o MST encontra abrigo na mídia.
Já os desvios, as dívidas da senadora por conta dos financiamentos públicos... É desse dinheiro que sai o esgar de ódio de gente como Bonner, Haack, Boechat, Miriam Leitão, Alexandre Garcia. Levam vantagem sobre atores.